Brasil: equilíbrio entre Israel, Palestina e Irã (inforel.org)

Novembro 24, 2009

Brasil: equilíbrio entre Israel, Palestina e Irã
20/11/2009 – 15h08

Original: http://www.inforel.org/noticias/noticia.php?not_id=3528&tipo=2

Em menos de 15 dias, o Brasil terá recebido os presidente de Israel, Shimon Peres, da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, e do Irã, Mahmoud Ahmadinejad.

Para o governo, trata-se de um teste de fogo para a sua política exterior. Os resultados das três visitas, somados, podem abrir ou fechar muitas portas para o país junto a comunidade internacional.

O primeiro a chegar foi Shimon Peres que viu muita coisa, mas que tinha uma única missão específica: evitar que Lula se encontrasse com o líder iraniano, o que deve acontecer na próxima segunda-feira, 23, em Brasília.

Nesta sexta-feira, Lula esteve com o palestino Abbas que também teve Ahmadinejad como tema principal.

Mahmoud Abbas acredita que Lula poderá conseguir influenciar o iraniano a retirar seu apoio ao grupo islâmico Hamas. Abbas também acusa Israel de dividir os palestinos e de não querer a paz na região.

O Brasil enfrentou pressões de todos os lados, inclusive dos Estados Unidos e da União Européia para não receber Ahmadinejad, mas não houve recuo.

Agora, a comunidade internacional espera que Lula fale com o iraniano sobre o seu programa nuclear, a perseguição do governo contra os Baha’i e a insistência de Ahmadinejad em querer varrer Israel do mapa.

Palestina

Em pelo menos duas oportunidades o presidente Luiz Inácio Lula da Silva falou à Assembléia-Geral da ONU sobre a necessidade de novos atores participarem do processo de paz no Oriente Médio.

Mahmoud Abbas pretende pedir que Lula assuma esse papel. Para o palestino, o presidente brasileiro é respeitado por árabes e judeus. Ele também confirmou que não vai disputar as próximas eleições como queria o governo brasileiro.

Na sua avaliação, Israel deveria seguir as determinações do acordo que ficou conhecido como “Mapa do Caminho”, encerrando com qualquer tipo de expansão.

Essa também é a posição do Brasil expressada recentemente em nota oficial do ministério das Relações Exteriores.

Abbas afirmou que a Autoridade Palestina não pretende proclamar a independência de forma unilateral, mas que o assunto deverá ser encaminhado ao Conselho de Segurança das Nações Unidas depois que a Liga Árabe fechar um projeto a respeito.

Irã

Neste final de semana, o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad chega à Brasília com um grupo de 300 empresários para assinar 24 acordos de energia, petroquímica, alimentos e medicamentos, entre outros.

Ele deveria ter vindo em maio, mas com dificuldades para garantir a reeleição, preferiu cancelar a viagem. O Irã avalia que o encontro entre Ahmadinejad e Lula poderá contribuir para uma imagem positiva do país e de seu presidente.

Na segunda-feira, Ahmadinejad será recebido no Congresso onde é criticado com freqüência. Uma audiência pública foi realizada a cerca de dois meses para discutir as violações contra os direitos humanos naquele país.

A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) também participará dos encontros entre empresários e os dois presidentes.

Análise da Notícia

Uma solução para o conflito entre israelenses e palestinos parece distante, muito distante, embora o Brasil dê sinais de que pretende atuar com vigor nesta direção.

A política exterior, no entanto, conseguiu suportar as pressões e manteve os encontros com alguns dos principais atores regionais.

Ao receber Shimon Peres, Mahmoud Abbas e Mahmoud Ahmadinejad, o Brasil está dizendo ao mundo que dialoga com todos.

E tem que ser assim mesmo. Isolar A ou B só contribui com mais tensões.

No entanto, não bastam encontros para as fotos e formalidades. É preciso dizer a cada um o que pensa o governo a respeito.

Se o Brasil é procurado por conta do respeito que nos têm, temos que tirar o melhor proveito disso.

Sem interferirmos nas questões internas de Israel, Palestina e Irã, podemos contribuir ao produzirmos uma crítica divorciada da ideologia.

Os resultados vão mostrar se de fato entramos nesse jogo para jogar ou apenas para assistir.

Também é importante destacar que as datas muito próximas entre uma visita e outra não foi mera coincidência. Há um simbolismo importante aí.

Nesta quinta-feira, por exemplo, a mensagem do Executivo brasileiro que cede um terreno para a construção da futura embaixada palestina em Brasília chegou ao Senado após ser aprovada na Câmara dos Deputados.

Em janeiro, o Brasil assume mais uma vez uma cadeira no Conselho de Segurança das Nações Unidas e além de Haiti e a própria reforma do sistema ONU poderia influenciar para que as questões do Oriente Médio fossem tratadas de forma concreta, com menos retórica.

O problema está na posição dos Estados Unidos. Com dez meses de governo, Barack Obama já voltou atrás em pelo menos duas questões fundamentais: o fechamento da prisão de Guantánamo e o conflito israelo-palestino.

Todo mundo sabe que sem os Estados Unidos acordo algum prospera. Além disso, como membro permanente do Conselho de Segurança, os norte-americanos não pensarão duas vezes para usar o poder de veto de que dispõem.


conhecendo ou escondendo?

Novembro 20, 2009
(Laerte)

eis o dilema de uma vida acadêmica. ou melhor, um deles.


de nerd e punk, todo mundo tem um pouco

Novembro 16, 2009

Para os desavisados, procurem detalhes sobre a banda, Bad Religion, e seu vocalista: Greg Graffin.


Para começar bem o dia

Novembro 4, 2009

Bom dia :)


Fotografias e fraudes na história?

Novembro 4, 2009

Atualizei a figura do cabeçalho do blog. É um detalhe de uma fotografia mundialmente famosa, autoria de Robert Capa.

Esta fotografia foi captada no que é conhecido como “O Dia D“, ou seja, a invasão da Normandia, por tropas aliadas, a fim de livrar o local  – e grande parte da Europa – do domínio da Alemanha Nazista.

Sobre a participação de Robert Capa neste fato histórico, há um site bastante interessante: [link]

Apesar da importância do evento e, consequentemente, da fotografia em questão, esta não é a  mais famosa de Capa. O best seller é a imagem de um combatente da Guerra Civil Espanhola sendo alvejado:

Esta é, certamente, não apenas a fotografia mais famosa de Robert Capa, mas uma das mais famosas da história da fotografia, particularmente do fotojornalismo.

Porém, há alguns meses atrás,  Capa (leia mais) foi acusado de ter forjado a fotografia. Vale lembrar que a denúncia de fraude em fotos históricas é, de certo modo, constante. Não apenas em casos como o de Capa, mas também outros emblemáticos, como a imagem capturada por Joe Rosenthal

Há duas questões que sempre são discutidas na fotografia acima:

  1. A fotografia foi tirada, segundo consta, no 5º dia de batalha das tropas americanas no Japão;
  2. O ato dos soldados não foi espontâneo.

O fato da imagem ter sido produzida no 5º dia de batalha não impediu que a mesma fosse veiculada como propaganda de guerra, simbolizando a vitória norte-americana nas terras japonesas após 35 dias. A imagem serviu como um argumento para o financiamento e apoio da população norte-americana aos esforços de guerra.

Além disto, supostamente já havia uma bandeira no local momentos antes, e a iniciativa dos soldados em colocar outra no local foi por conta de ordens superiores, o que aumentaria a suspeita de uma possível fraude.

Atualmente, a onda do pseudo-revisionismo histórico negacionista se utiliza de supostas discussões técnicas sobre fraudes em fotografias para dar “consistência” às suas teses. No livro de Siegfried Ellwanger Castan, “Holocausto Judeu ou Alemão?”, o autor apresenta uma série de supostas fraudes fotográficas, denúncias com teor absolutamente duvidosos (os argumentos do autor, não as imagens).

Vale lembrar que a denúncia de fraude por parte dos negacionistas é feita por diversos meios, desde a descrita acima, até o caso do “Relatório Leuchter”, onde um suposto engenheiro construtor de câmaras de gás no Estado do Texas comprova a inexistências das câmaras de Auschwitz. Por mais que os argumentos utilizados pelos negacionistas sejam de uma fragilidade técnico-teórica evidente, o fato de utilizarem de mentiras em diversos meios pode forjar uma pseudo seriedade profissional ao público não especializado.

O leitor desavisado que se depara com uma obra que apresenta diversos “profissionais” e se coloca em busca da “verdade histórica”, provavelmente não sabe que casos como de Fred Leuchter Jr. (o suposto engenheiro norte-americano) foram julgados e considerados falsos (o episódio ocorreu durante as batalhas judiciais entre a historiadora Deborah Lipstadt e o negacionista britânico David Irving).

A denúncia de fraudes é constante na história. A idéia que há um terreno obscuro nos fatos históricos, recheados de simbologia e segredos até então desconhecida é um filão comercial de primeira grandeza.

É muito importante que o público que tenha contato com este tipo de material, seja ele verdadeiro ou falso,  saiba que há interesses diversos neste embate, interesses que vão desde a manutenção da memória de vítimas de guerra até o aniquilamento dos sobreviventes.

Compreender os motivos que levam a uma denúncia de fraude é o primeiro passo para que a leitura dos textos seja feita de uma maneira crítica e lúcida.

Sem isto, Siegfried Castan (S.E. Castan) pode ser visto tal qual um autêntico historiador, e não como o maior fomentador de material negacionista e antissemita no Brasil nas últimas décadas, prática que levou este negacionista a ser condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) pelo crime de racismo (antissemitismo).

Para finalizar, deixo uma fotografia de Capa que encontrei em um blog que acompanho: Rua da Judiaria

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Juventude, Punk, Whisky ‘n’ Samba

Outubro 21, 2009

Vez ou outra, o Punk Rock é descrito como um estilo de música surgido na segunda metade da década de 1970, com características marcantes: velocidade rápida e poucos acordes – ou seja, nenhum virtuosismo musical.

Isto, obviamente, tem certa razão e lógica. O punkrock é, via de regra,  algo extremamente simples, do ponto de vista da robustez musical, e do fácil acesso, ou seja:  não é difícil você conseguir tocar os sons de suas bandas prediletas, tampouco montar uma banda.

Por estes e outros motivos diversos, o punkrock e a contracultura punk, nas suas mais diversas expressões é um fenômeno revolucionário (não do ponto de visto programático), tanto na indústria cultural, quanto nos movimentos juvenis. O punk não apenas deu ânimo à inúmeras novas bandas, resgatando o rock’n'roll nas suas origens mais simples – e sinceras – possíveis, como também coaptou, compreendeu e impulsionou  a desilusão e rebeldia de diversas gerações de jovens sem perspectiva de futuro e estabilidade.

Algumas pessoas podem vir a dizer: “Ah, mas era uma rebeldia despropositada, sem grande ambições sócio-políticas“. Em parte isto está correto. A cultura punk nunca foi algo plenamente organizado e com um fim e meios específicos. Penso que não haveria de ser diferente disto, pois é justamente este caráter que alguns podem descrever como “mambembe” que foi um dos motivos para que o Punk seja algo tão vasto e passível de várias compreensões ou mesmo classificações e, consequentemente, ramificações.

Deste modo, evito usar o termo “movimento” para o Punk/Punkrock, justamente por enxergar neste termo (ou seria um conceito?) uma certa padronização e concepção única sobre determinada conjuntura (no caso, o Punk). Prefiro pensar e acreditar que esta cultura seja algo em constante construção e desconstrução.

Esta pode ser uma posição extremamente apaixonada, e de fato é. Vivi intensamente grande parte da minha adolescência entre rodas de pogo, conversas em bares, leitura de zines e ameaças de brigas, algo que, felizmente, raramente ocorria. E, durante todo este caminho, a minha visão sobre o que o Punk significava mudou constantemente. Creio, inclusive, que cheguei num ponto no qual afirmo que é praticamente impossível a definição concreta do que seria esta contracultura.

Há bandas punks em todo o mundo, e por mais que muitas delas busquem o “espírito” de 1977 (ano emblemático do que seria a “fundação” do Punk), ou então uma cópia de bandas legendárias, algo que geraria uma determinada padronização tanto musical, quanto estética, é óbvio que uma banda proveniente do leste europeu tem diferenças em relação a uma formada no triângulo mineiro, por contas das bagagens culturais, entre outros motivos.

Claro, às vezes isto não é o bastante para que duas bandas de localidades distintas sejam extremamente parecidas, mas creio que, com o tempo, as cópias-das-cópias acabam, simplesmente por que a originalidade é um dos motores na cena roqueira, e isto inclui as bandas de punkrock.

Buscando a originalidade, diversas bandas deste cenário herdam influências em culturas tradicionais de seus países, ou mesmo de outros Estados. Se eu fosse usar um linguajar técnico de um articulista econômico, poderia falar que isto é reflexo de uma saturação do mercado de bandas punks na busca por uma consolidação de determinado produto num mercado competitivo. Bullshit! A lógica do mercado não se aplica ao underground, porque acredito que a boa música punk é aquela feita com alma, com sentimento (de preferência sem choros, por favor).

A conjunção de elementos do punkrock com influências trazidas de outras músicas e culturas é sempre uma boa pedida e um prato cheio para conversas que podem ir tanto do viés antropológico quanto ao delicioso patamar alcoólico.

No caso do patamar alcoólico, quando pensamos em punkrock + cultura folk de determinada região + alcoól, é difícil não pensar numa banda que eu escuto constantemente: The Pogues

Banda irlandesa que unia sonoridades e instrumentos de música celta, com uma certa rapidez nas músicas e uma postura de palco bastante punk, além de contar com um vocalista que, além de ter tocado anteriormente em uma banda punk (não me lembro o nome agora), vivia de maneira destrutiva tal qual muitos punks e/ou drunk boys na época: Shane Macgowan e seus indefectíves poucos dentes.

O resultado disto tudo? Uma ÓTIMA banda, com uma trajetória extremamente conturbada (a história e as fofocas você pode encontrar em diversos sites, não gosto mto de falar disto) e músicas LINDAS, tal qual:

The Pogues – “Dirty Old Town

The Pogues é considerada a primeira, se não me engano, das bandas do que é chamado como Irish Punk (ou mesmo Celtic Punk). Atualmente, há diversas destas em atividade. As mais conhecidas: Dropkick Murphys, Real Mckenzies, Flogging Molly (estupenda), Blood or Whiskey, entre outras.

Flogging Molly – “Drunken Lullabies”

Grande parte destas  bandas são formadas por filhos de imigrantes irlandeses (a tal da bagagem cultural), ou simplesmente por amantes desta música. Procurando, qualquer internauta atento pode facilmente achar bandas Irish Punk na Itália, Japão ou Israel (infelizmente, não vou lembrar o nome desta banda, que inclusive canta em iídiche).

Claro, claro .. a música irlandesa é realmente mto bonita e parece ser um casamento perfeito com o punkrock. Mas… e o Samba?

O meu conhecimento sobre bandas que buscam aliar a sonoridade do Samba com a música e atitude punk é pífio. Sei que, recentemente, alguns integrantes da velha-guarda punk paulistana, tal qual o Clemente (vocalista dos Inocentes, banda em atividade até hoje) fizeram um show – ou seria um projeto? -  que tocava músicas punks com conjuntos de samba. Infelizmente, não sei muito além disto.

Porém, me lembro perfeitamente de uma banda que faz este casamento, entre Samba e Punk. Além disto, tem uma característa um tanto quanto peculiar: são escoceses, que participavam de uma “escola” de samba naquelas terras e decidiram montar uma banda punk pra tocar clássicos do punk rock… vestidos de mulher, ou melhor, de vestidos!

Surreal, não? Nem tanto.. a parada é interessante: Bloco Vomit


A banda tem 3 CDS lançados, dois eu tenho aqui na minha singela coleção. O site oficial é www.blocovomit.com e o primeiro cd parece estar disponível pra download neste link.

Infelizmente, não achei nenhum vídeo no youtube… mas, garimpando, creio ser possível achar a participação deles no programa Musikaos, que era apresentado pelo Gastão (ex-VJ da MTV, que foi um dos responsáveis pelo documentários Botinada!, sobre o punk brasileiro), na Tv Cultura.

Outra banda que mistura elementos de diversas localidades com o punk é uma bastante conhecida: Gogol Bordello

Não vou me arriscar a falar muito deles, pois pouco conheço sobre a trajetória e formação desta. Sei que tem integrantes de diversos países do globo, um dos motivos para um som tão bom.

Mas algo posso afirmar com uma certa dose de convicção: cada vez mais vejo o Punk como algo múltiplo, seja nas sonoridades, convicções políticas e (a)partidárias e o caráter atual e jovem, dos 15 aos 95 anos de idade.

Stay Punk!

Abs :)

ps: Possíveis erros de Português são fruto de uma imensa preguiça em reler o texto atentamente.


Rebeldes y Revolucionários

Outubro 19, 2009

Ouvi hoje uma canção que me fez ir atrás de outras. Eu explico.

“Bella Ciao” é uma canção antifascista, entoada pelos militantes anarquistas e comunistas que lutavam contra as tropas nazi-fascistas. Este termo -nazi-fascista, nazifascista – pode não ser muito apropriado em determinadas conjunturas, pois acaba confundindo dois movimentos políticos que tem determinadas particularidades. Mas creio não ser o caso, pois era justamente o cerne da batalha e, consequentemente, da canção. Do mesmo modo, colocar comunistas e anarquistas numa mesma categoria não é, de maneira alguma, descabida. Neste caso.

Eis:

 

Una mattina mi son svegliato,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
Una mattina mi son svegliato,
e ho trovato l’invasor.
morto per la libertà!»
Mi diranno «Che bel fior!»
E le genti che passeranno,

O partigiano, portami via,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
O partigiano, portami via,
ché mi sento di morir.
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!…

E se io muoio da partigiano,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
E se io muoio da partigiano,
tu mi devi seppellir.
«È questo il fiore del partigiano»,

E seppellire lassù in montagna,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
E seppellire lassù in montagna,
sotto l’ombra di un bel fior.

E le genti che passeranno,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!

Esta canção, após determinado tempo, passou a ser reproduzida por variados grupos Partisans, em diversas nações. Os partisans eram agrupamentos  sem muita organização, do ponto de vista militar,  que eram formados para conter e minar a ameaça de invasão nazista, na maior parte dos casos. Houve casos de Partisans com integrantes judeus.

É interessante notar que a canção continua sendo um hino antifascista, e é cantada atualmente, inclusive em estádio de futebol. Porquê? Simples, embora triste. Há inúmeros grupos racistas, xenófobos e neonazistas em atividade na europa atualmente, e muito deles contam com o apoio de algumas “torcidas organizadas” locais, que lá tem o nome “Ultra” (que, na verdade, não se resume apenas ao termo diferente, mas sim uma prática de torcer diferente do que estamos acostumados a ver no caso das organizadas brasileiras).

Casos de racismo no futebol têm sido frequente, o que levam algumas entidades proporem boicotes e campanha de esclarecimento sobre o assunto. Não sei até onde o “esclarecimento” é válido nestes casos, tendo em vista que dificilmente alguém da mentalidade de extrema-direita muda sua postura e seus preconceitos. Isto vale também para outros posicionamentos políticos, obviamente. Penso que a questão está mais no campo (sem trocadilhos) jurídico.

Na Itália, a presença de torcidas que seguem uma postura neonazista são várias, e talvez o caso mais emblemático seja da IRRIDUCIBILI (Lazio), que contam inclusive com o apoio de Paolo Di Canio, que era jogador da Lazio e fascista assumido, além de integrante desta torcida. Di Canio possui tatuagens em homenagem ao Duce, inclusive (“Dux”).

(Alguma dúvida disto? – foto da BBC/UK)

Porém, não é apenas de fachos com cara de malvado e músicas racistas que vive o futebol italiano e as claques da velha bota. Um caso de claro postura antifascista advem da torcida da Livorno.

Vejam a música que a torcida está cantando:

A Livorno, inclusive, tem um caso parecido, mas antagônico, ao de Di Canio. Cristiano Lucarelli é conhecido não apenas pelo bom futebol, mas por ser um militante comunista. Ao comemorar seus gols, frequentemente faz saudação típica

O número 99 não é por acaso. É o ano da fundaçao das Brigadas Autônomas Livornesas, ultra da qual Lucarelli é um dos fundadores. Atualmente, ele joga no Parma.

Voltando às canções antifascistas, há diversas outras do tipo:

Canto dei malfattori

Inno della rivolta

Há ainda casos de bandas de punkrock que gravaram algumas destas canções:

Inno individualista – versão da banda Youngang, banda Punk/Oi! anarquista de Torino

Há ainda La hoguera de la Revolución, que é uma canção criada durante a Guerra Civil Espanhola. Há uma versão da banda punkrock “espanhola” SinDios:

Há ainda uma versão de uma banda tupiniquim, que eu gosto bastante: Juventude Maldita (“Para às barricadas”, no youtube).

Outra canção anarquista bastante conhecida é La internacional anarquista, surgida também durante a Guerra Civil Espanhola:

“Arriba los pobres del mundo!
¡En pie los esclavos sin pan!
Alcémonos todos, que llega
La Revolución Social…”

é de arrepiar.

O hino da Internacional Comunista é bastante conhecido, o Pc do B vez ou outra apresenta a canção em seus programas na TV. Talvez seja só isto que sobrou de comunismo nas propostas e práticas do partido…

A banda Punk/Oi! Garotos Podres (embora eles prefirem o “rótulo” Rock de Subúrbio, talvez pra não criar tanta confusão, algo que sempre acompanhou a trajetória da banda) tem uma versão deste hino comunista:

Muitas pessoas acham que o Garotos Podres é uma banda anarquista. Engano.  Apesar de músicas como “Anarkia Oi!”, e outras com teor próximos ao anarquismo, eles defendem um ideal esquerdista mais condizentes ao comunismo. O Mao, vocalista da banda, é filiado ao PT (participante das alas mais esquerdistas do partido), além de ser historiador (publicou ano passado, salvo engano, um livro sobre a Revolução Cubana, fruto da tese de doutorado defendida na Universidade de São Paulo).

(É bom ver que a USP não está restrita à práticas pós-modernistas na historiografia. Um alívio)

Além de Mao, outro integrante dos Garotos Podres é militante do PT (não sei se é o Sukata ou o Mauro), inclusive foi candidato à vereador pelo partido governista nas eleições passadas, candidato na cidade de São Bernardo (ou alguma outra do ABC, não tenho certeza).

Para quem tiver oportuinidade e curiosidade, visitem o link, página do site Direitos Humanos na Internet, que reúne uma série de canções e hinos, muitas das quais revolucionárias.

Trago de bônus uma versão de Bella Ciao feita por um torcedor palestrino:

Até mais, boa semana aos (não)leitores ! :)

Di Canio possui tatuagens em homenagem ao Duce, inclusive (“Dux”).

“Totalitarismo” em Hannah Arendt

Outubro 16, 2009

Uma das maiores contribuições do legado de Hannah Arendt (morta em 04.12.1975) constitui-se em torno das reflexões acerca do fenômeno do totalitarismo.

Acabo de ler um texto, de autoria de Ricardo Luiz de Souza, onde o autor apresenta algumas reflexões (e críticas) sobre o conceito de totalitário, na obra de Arendt: Hannah Arendt e o totalitarismo: o conceito e os mortos

O texto, publicado na revista Politéia: História e Sociedade, está disponível na íntegra no seguinte endereço: http://www.uesb.br/politeia/v7/artigo10.pdf

Creio ser um bom texto para o primeiro contato com os escritos de Arendt nesta temática.

Boa leitura!


e na hora da necessidade?

Setembro 13, 2009

Grande ABC, perfeito retrato de um grande centro industrial…

Poluído de fora a fora por empresas que além de tudo pouco

empregam,

pelo contrário, demitem…

A fome, a miséria e o ódio estão por todos os lados,

Cada vez mais eu me pergunto…

Haverá uma saída?? Haverá solução??

Quem somos nós pra perguntar isso??

Nós somos TERCERA CLASSE!!!


Mil novecentos e noventa e oito, o século está se acabando,

Mas ao invés de evoluir, as pessoas estão se matando

Violência no campo urbano, violência no centro rural,

Retratos de uma sociedade desigual

Oh, Será que há uma solução? Oh, Será que há uma saída?

Devemos começar por nós essa transformação…

As pessoas cada vez piores se esquecem de tentar ajudar

Quem está em pior situação, sem chances de melhorar.

E do meu lado em toda essa cidade, todos dizem ser meus amigos

Mas na hora da necessidade não aguento tanta falsidade


Oh, Será que há uma solução? Oh, Será que há uma saída?

Devemos começar por nós essa transformação…

Mas se desistir e deixar continuar, eu sei que é fácil se deixar enganar

Mas não esqueça que a culpa, também sua essa culpa será

Por tanto pense bem se quer mesmo parar, pense no futuro que seu filho terá

E continue como anarquista, continue a protestar!

Oh, Aí está a solução! Oh, Aí está a saída!

Melhor que qualquer governo é a autogestão!


Caderno Mais! sobre fascismo (V)

Setembro 7, 2009

(V) Imigrantes e inimigos

HISTORIADORA REVELA DETALHES DOS CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO DE ALEMÃES, ITALIANOS E JAPONESES NO BRASIL E AS CONSEQUÊNCIAS DO ESTIGMA SOCIAL DEPOIS DA PRISÃO

MARIO GIOIA

DA REPORTAGEM LOCAL

Depois de 15 anos de pesquisa, a historiadora Priscila Ferreira Perazzo, 41, consegue lançar o resultado de seu estudo sobre um tema pouco abordado pela historiografia do país: os campos de concentração no território brasileiro.

Menos terríveis que os campos de extermínio disseminados pela Alemanha nazista, os espaços são mais numerosos no país entre 1942 e 1945, no final da Segunda Guerra Mundial, quando o governo Vargas declara inimigo o Eixo. Assim, por extensão, cidadãos nascidos na Alemanha, na Itália e no Japão começam a ser detidos e confinados em espaços especialmente feitos para esse fim.

“Prisioneiros da Guerra – Os Súditos do Eixo nos Campos de Concentração Brasileiros (1942-1945)” (Imprensa Oficial/Humanitas, 384 págs., R$ 35) se beneficiou da abertura gradual de arquivos oficiais e traz mais detalhes sobre os dez campos implementados em diversas condições por quatro regiões brasileiras (apenas o Centro-Oeste não abrigou locais desse tipo).

A análise vai desde os mais conhecidos presídios de Ilha das Flores e de Ilha Grande, no Rio de Janeiro, até o campo de concentração de Tomé-Açu, no Pará, no meio da selva amazônica, para onde foi levada grande parte dos japoneses detidos no período. Há também o campo em Chã de Estevão, em Paulista (PE), onde alemães viviam reclusos em pequenas casas e tinham o direito de levar a família para essas residências.

“O tratamento dado aos súditos do Eixo, durante a guerra, é variado. Meu livro não pega aqueles imigrantes que foram obrigados, por exemplo, a ficar confinados em suas próprias casas no interior do Paraná e de São Paulo”, conta a historiadora, que, pela documentação, acredita que o número de presos desse tipo não passou de 2.000 pessoas.

A definição dos campos vem de obras referenciais de nomes como o da teórica alemã Hannah Arendt (1906-1975) e do sociólogo britânico Anthony Giddens, entre outros. O escopo de “Prisioneiros…” também não se detém em experiências anteriores de espaços do tipo no Brasil, como o de Alagadiço, no Ceará, onde retirantes foram impedidos de entrar em Fortaleza e ficaram confinados em 1915 e, posteriormente, em 1932.

A seguir, trechos da entrevista com Perazzo.

FOLHA – Qual é a definição de um campo de concentração?

PRISCILA FERREIRA PERAZZO – Campo de concentração implica um lugar aberto, mas delimitado para ser objeto de vigilância, onde ficam reclusas pessoas que, por algum motivo, devem ser isoladas. É interessante demarcar que o uso de campos de concentração na primeira metade do século 20 foi mais extenso do que se imagina. Em razão de um pensamento comum que vem com o pós-guerra, hoje a gente acha que campo de concentração é só aquilo que aconteceu na Segunda Guerra Mundial, com os nazistas, especialmente os espaços terríveis criados para o extermínio de pessoas, como Auschwitz. A prática de internar pessoas, civis ou militares, foi relativamente comum. As referências em estudos indicam que campos desse tipo começaram em 1899, na África do Sul, na Guerra dos Boêres, quando os ingleses confinaram os africâneres. Mas há formas de confinamento e segregação mais antigas, como os leprosários no final da Idade Média, entre outras experiências.

FOLHA – No Brasil, quais eram as condições gerais desses campos?

PERAZZO – Tinha de tudo. Chão de Estevão, em Pernambuco, por exemplo, não era prisão, era quase um vilarejo. No Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, os alemães ficavam em presídios, assim como no Rio, em Ilha Grande e Ilha das Flores. Em São Paulo, um deles era uma fazenda.

FOLHA – Havia diferenças no tratamento de cada grupo étnico?

PERAZZO – Sim, havia. O maior número de presos é de alemães, cerca de 60%. O segundo é de italianos, uns 30%, e o último de japoneses, o restante, que quase só ficaram em Tomé-Açu, no Pará. Mas o tratamento dado aos súditos do Eixo, durante a guerra, é variado.

FOLHA – Quais imigrantes tinham a pior situação?

PERAZZO – Com certeza, os alemães, que eram levados para os piores campos, os do Sul, que eram presídios, e os do Rio. Os comunistas estavam lá desde 1935, havia presos comuns. Foi reformada uma ala para seguir as recomendações da Convenção de Genebra, porque os prisioneiros de guerra não poderiam ficar no meio dos prisioneiros normais. Os relatos são de que os alemães se incomodavam, eram obrigados a ficar perto de assassinos, ladrões, em lugares mais cheios.

FOLHA – E, quando são libertados, qual é a reação dos brasileiros em relação a esses alemães?

PERAZZO – A pior possível. A perseguição contra eles é bem maior, em especial no Sul, é mais traumática. Ouvi descendentes que, à época, tinham de 12 a 20 anos e que contaram as muitas humilhações que as famílias sofreram. Eram famílias bem estabelecidas, tinham altos cargos em grandes empresas. Depois da passagem pelos campos, não conseguiam mais os mesmos empregos. As famílias ficaram destruídas, a miséria chegava. Quando voltavam, eram vistos como nazistas. Socialmente, eram estigmatizados. A polarização não veio no meio da Segunda Guerra, mas antes, nos anos 30. Havia a propaganda varguista, de 1938 para a frente, ficou pior. Os alemães sofriam hostilidade, eram chamados para depor na delegacia constantemente, ficavam uma noite detidos, saíam, depois eram pegos novamente. Em janeiro de 1942, começa a sair uma enxurrada de coisas contra eles, um monte de reportagens, jornais detonando os alemães, porque eles são inimigos, associando-os às piores atrocidades nazistas. Os japoneses também sofrem. São vistos como sabotadores, traidores, dissimulados. A recuperação da imagem desse grupo é recente.

FOLHA – É muito diferente de como os italianos são vistos, não?

PERAZZO – Totalmente. A relação política Brasil-Itália é diferente. A Itália sai da Segunda Guerra muito antes, Mussolini cai em 1943. O governo italiano que assume, provisório, é de cooperação com os Aliados, sai da guerra, não é mais beligerante. Por isso, em 1944 a FEB vai para a Itália lutar contra os nazistas.

A política étnica e nacionalista do governo Vargas tem diretrizes diferentes para cada grupo étnico. Algumas coisas aconteciam para os japoneses, muitas para os alemães e poucas para os italianos. Os italianos sofreram no auge da Segunda Guerra, porque aí eles eram vistos como fascistas.

FOLHA – Mas houve alemães que, ao não serem levados para campos do Sul e do Rio, tiveram melhores condições durante esse período?

PERAZZO – Sim, os de Chão de Estevão, em Pernambuco. Ao local foram enviados 23 alemães que trabalhavam na Companhia Paulista de Tecidos, da família Lundgren, das Casas Pernambucanas. A Lundgren aponta as 23 pessoas que têm de ser internadas. Esses 23 homens vão para o campo, que é constituído por várias casinhas. Quem tem família leva a sua. Quem não tem, ou seja, os solteiros, ficam numa casinha à parte. E sofrem toda a questão da vigilância. Como eles eram altos funcionários da empresa, especializados, técnicos, que vinham justamente da Alemanha e da Áustria para trabalhar na fábrica, eles faziam uma falta terrível, porque não havia substitutos capacitados. Então, a companhia ia à noite buscá-los de carro, levava-os à fábrica e eles faziam o que podiam, davam uma assistência aos outros funcionários. Se compararmos essa situação aos campos do Rio de Janeiro, do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, nesses últimos a prisão é bem mais drástica.

FOLHA – Conseguir chegar a essas conclusões foi complicado? Qual é a situação desses arquivos e registros familiares?

PERAZZO – Hoje é bem mais fácil chegar a esses arquivos oficiais, não que seja simples alcançar todas essas conclusões. Locais como o Arquivo Histórico do Itamaraty e o Arquivo Nacional, ambos no Rio, têm vasta documentação. No entanto, isso não acontece em todos os Estados. No Pará, por exemplo, é muito difícil conseguir documentação oficial. Há pouca coisa dos campos de Tomé-Açu na própria cidade e em Belém, a capital do Estado.

Muitas vezes, temos o problema de não obtermos microfilmes ou xerox, então copiamos à mão páginas e páginas de livros e registros contidos até em latas.

Os registros familiares são complicados. Por exemplo, com a estigmatização dos alemães no pós-guerra, vários imigrantes que passaram por tudo isso queimaram o que tinham. Eles morriam de medo de sofrer represálias, se privaram da língua e de quaisquer outras associações com o nazismo. Levaram para o túmulo muitas informações essenciais sobre esse período.

[FIM]

Há neste textos, sem dúvida, um bom material de pesquisa, de informação e opinião. Não li atentamente ainda todos os textos, mas farei isto e publicarei minha opinião aqui no blog. Lendo por cima, já vi ausência de certos elementos, tal qual a menção a determinados historiadores do tema. Estou um pouco sem tempo. Porém, assim que puder, farei esta “análise” aqui no blog. Saludos!

Imigrantes e inimigosHISTORIADORA REVELA DETALHES DOS CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO DE ALEMÃES, ITALIANOS E JAPONESES NO BRASIL E AS CONSEQUÊNCIAS DO ESTIGMA SOCIAL DEPOIS DA PRISÃO

MARIO GIOIA
DA REPORTAGEM LOCAL

Depois de 15 anos de pesquisa, a historiadora Priscila Ferreira Perazzo, 41, consegue lançar o resultado de seu estudo sobre um tema pouco abordado pela historiografia do país: os campos de concentração no território brasileiro.
Menos terríveis que os campos de extermínio disseminados pela Alemanha nazista, os espaços são mais numerosos no país entre 1942 e 1945, no final da Segunda Guerra Mundial, quando o governo Vargas declara inimigo o Eixo. Assim, por extensão, cidadãos nascidos na Alemanha, na Itália e no Japão começam a ser detidos e confinados em espaços especialmente feitos para esse fim.
“Prisioneiros da Guerra – Os Súditos do Eixo nos Campos de Concentração Brasileiros (1942-1945)” (Imprensa Oficial/Humanitas, 384 págs., R$ 35) se beneficiou da abertura gradual de arquivos oficiais e traz mais detalhes sobre os dez campos implementados em diversas condições por quatro regiões brasileiras (apenas o Centro-Oeste não abrigou locais desse tipo).
A análise vai desde os mais conhecidos presídios de Ilha das Flores e de Ilha Grande, no Rio de Janeiro, até o campo de concentração de Tomé-Açu, no Pará, no meio da selva amazônica, para onde foi levada grande parte dos japoneses detidos no período. Há também o campo em Chã de Estevão, em Paulista (PE), onde alemães viviam reclusos em pequenas casas e tinham o direito de levar a família para essas residências.
“O tratamento dado aos súditos do Eixo, durante a guerra, é variado. Meu livro não pega aqueles imigrantes que foram obrigados, por exemplo, a ficar confinados em suas próprias casas no interior do Paraná e de São Paulo”, conta a historiadora, que, pela documentação, acredita que o número de presos desse tipo não passou de 2.000 pessoas.
A definição dos campos vem de obras referenciais de nomes como o da teórica alemã Hannah Arendt (1906-1975) e do sociólogo britânico Anthony Giddens, entre outros. O escopo de “Prisioneiros…” também não se detém em experiências anteriores de espaços do tipo no Brasil, como o de Alagadiço, no Ceará, onde retirantes foram impedidos de entrar em Fortaleza e ficaram confinados em 1915 e, posteriormente, em 1932.
A seguir, trechos da entrevista com Perazzo.

FOLHA – Qual é a definição de um campo de concentração?
PRISCILA FERREIRA PERAZZO - Campo de concentração implica um lugar aberto, mas delimitado para ser objeto de vigilância, onde ficam reclusas pessoas que, por algum motivo, devem ser isoladas. É interessante demarcar que o uso de campos de concentração na primeira metade do século 20 foi mais extenso do que se imagina. Em razão de um pensamento comum que vem com o pós-guerra, hoje a gente acha que campo de concentração é só aquilo que aconteceu na Segunda Guerra Mundial, com os nazistas, especialmente os espaços terríveis criados para o extermínio de pessoas, como Auschwitz. A prática de internar pessoas, civis ou militares, foi relativamente comum. As referências em estudos indicam que campos desse tipo começaram em 1899, na África do Sul, na Guerra dos Boêres, quando os ingleses confinaram os africâneres. Mas há formas de confinamento e segregação mais antigas, como os leprosários no final da Idade Média, entre outras experiências.

FOLHA – No Brasil, quais eram as condições gerais desses campos?
PERAZZO - Tinha de tudo. Chão de Estevão, em Pernambuco, por exemplo, não era prisão, era quase um vilarejo. No Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, os alemães ficavam em presídios, assim como no Rio, em Ilha Grande e Ilha das Flores. Em São Paulo, um deles era uma fazenda.

FOLHA – Havia diferenças no tratamento de cada grupo étnico?
PERAZZO – Sim, havia. O maior número de presos é de alemães, cerca de 60%. O segundo é de italianos, uns 30%, e o último de japoneses, o restante, que quase só ficaram em Tomé-Açu, no Pará. Mas o tratamento dado aos súditos do Eixo, durante a guerra, é variado.

FOLHA – Quais imigrantes tinham a pior situação?
PERAZZO - Com certeza, os alemães, que eram levados para os piores campos, os do Sul, que eram presídios, e os do Rio. Os comunistas estavam lá desde 1935, havia presos comuns. Foi reformada uma ala para seguir as recomendações da Convenção de Genebra, porque os prisioneiros de guerra não poderiam ficar no meio dos prisioneiros normais. Os relatos são de que os alemães se incomodavam, eram obrigados a ficar perto de assassinos, ladrões, em lugares mais cheios.

FOLHA – E, quando são libertados, qual é a reação dos brasileiros em relação a esses alemães?
PERAZZO - A pior possível. A perseguição contra eles é bem maior, em especial no Sul, é mais traumática. Ouvi descendentes que, à época, tinham de 12 a 20 anos e que contaram as muitas humilhações que as famílias sofreram. Eram famílias bem estabelecidas, tinham altos cargos em grandes empresas. Depois da passagem pelos campos, não conseguiam mais os mesmos empregos. As famílias ficaram destruídas, a miséria chegava. Quando voltavam, eram vistos como nazistas. Socialmente, eram estigmatizados. A polarização não veio no meio da Segunda Guerra, mas antes, nos anos 30. Havia a propaganda varguista, de 1938 para a frente, ficou pior. Os alemães sofriam hostilidade, eram chamados para depor na delegacia constantemente, ficavam uma noite detidos, saíam, depois eram pegos novamente. Em janeiro de 1942, começa a sair uma enxurrada de coisas contra eles, um monte de reportagens, jornais detonando os alemães, porque eles são inimigos, associando-os às piores atrocidades nazistas. Os japoneses também sofrem. São vistos como sabotadores, traidores, dissimulados. A recuperação da imagem desse grupo é recente.

FOLHA – É muito diferente de como os italianos são vistos, não?
PERAZZO – Totalmente. A relação política Brasil-Itália é diferente. A Itália sai da Segunda Guerra muito antes, Mussolini cai em 1943. O governo italiano que assume, provisório, é de cooperação com os Aliados, sai da guerra, não é mais beligerante. Por isso, em 1944 a FEB vai para a Itália lutar contra os nazistas.
A política étnica e nacionalista do governo Vargas tem diretrizes diferentes para cada grupo étnico. Algumas coisas aconteciam para os japoneses, muitas para os alemães e poucas para os italianos. Os italianos sofreram no auge da Segunda Guerra, porque aí eles eram vistos como fascistas.

FOLHA – Mas houve alemães que, ao não serem levados para campos do Sul e do Rio, tiveram melhores condições durante esse período?
PERAZZO - Sim, os de Chão de Estevão, em Pernambuco. Ao local foram enviados 23 alemães que trabalhavam na Companhia Paulista de Tecidos, da família Lundgren, das Casas Pernambucanas. A Lundgren aponta as 23 pessoas que têm de ser internadas. Esses 23 homens vão para o campo, que é constituído por várias casinhas. Quem tem família leva a sua. Quem não tem, ou seja, os solteiros, ficam numa casinha à parte. E sofrem toda a questão da vigilância. Como eles eram altos funcionários da empresa, especializados, técnicos, que vinham justamente da Alemanha e da Áustria para trabalhar na fábrica, eles faziam uma falta terrível, porque não havia substitutos capacitados. Então, a companhia ia à noite buscá-los de carro, levava-os à fábrica e eles faziam o que podiam, davam uma assistência aos outros funcionários. Se compararmos essa situação aos campos do Rio de Janeiro, do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, nesses últimos a prisão é bem mais drástica.

FOLHA – Conseguir chegar a essas conclusões foi complicado? Qual é a situação desses arquivos e registros familiares?
PERAZZO - Hoje é bem mais fácil chegar a esses arquivos oficiais, não que seja simples alcançar todas essas conclusões. Locais como o Arquivo Histórico do Itamaraty e o Arquivo Nacional, ambos no Rio, têm vasta documentação. No entanto, isso não acontece em todos os Estados. No Pará, por exemplo, é muito difícil conseguir documentação oficial. Há pouca coisa dos campos de Tomé-Açu na própria cidade e em Belém, a capital do Estado.
Muitas vezes, temos o problema de não obtermos microfilmes ou xerox, então copiamos à mão páginas e páginas de livros e registros contidos até em latas.
Os registros familiares são complicados. Por exemplo, com a estigmatização dos alemães no pós-guerra, vários imigrantes que passaram por tudo isso queimaram o que tinham. Eles morriam de medo de sofrer represálias, se privaram da língua e de quaisquer outras associações com o nazismo. Levaram para o túmulo muitas informações essenciais sobre esse período.