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Criar e Recriar
15 janA criatividade é algo que descobri na vida nos desenhos da escola, depois na faculdade como disciplina, então, como critério de seleção. Por fim, e não menos distante, como motivo de estranhamento pessoal ou mesmo, de categorização no vulgar “ah, aquele pessoal assim, criativo”.
Criar dia a dia, trabalhar com criação demonstra um grande exercício de inspiração, onde conhecer o macro para se extrair o micro, é fundamental. Não adianta entrar em desespero e sair em uma busca incessante por referências, que estas acabarão por se tornar indiscretamente diretas; é o tal do plágio.
Nessa vastidão de internet categorizada por feeds, há quem ainda acredite que não pode ser encontrado ou ainda “não, impossível alguém achar” ou “é só este detalhe”, em uma inocência beirando a mediocridade.
Dentro do trabalho com imagens, a pregnância da imagem, a fixação do olhar é trabalhada com diversos recursos, em um mapeamento de sentido de leitura, caminho do olhar pela composição… tanto a tipografia, quanto as cores ou a forma fazem a personalidade da imagem composta. E ainda, há quem diga que uma coisa pesa mais que outra… mas enfim.
Fato é que não adianta pegar a forma e mudar a cor, ou melhor, pegar o conteúdo e mudar a forma imediata, que ele vai ser sempre o mesmo. Os sentidos estão ali.
Enfim, vergonha na cara é o que falta em muita gente por ai
(por) sobre botinas
26 setEis que as “coisas” mudam, a inexorável marcha do tempo.
Vivemos morrendo e vivemos para morrer, mas nunca saberia – por mais que anunciado – que as feridas profundas seriam aquelas incólumes, praticamente imperceptíveis. Os cabelos já se foram, os espinhos repousam nas gavetas. As botas, aquelas que marchavam em nossos corações, não existem mais. A irmandade que a cerveja barata proporcionava … esta se esvaiu, como era de esperar, mas a cegueira momentânea imortalizava um sentimento.
Amizades voláteis, irmandades efêmeras. Por que o mal cristão não saberia colocar a cara à tapa, e de fato jamais a pôs. Pois a amizade que julgavam solidificada, vejam bem, foi nada além que um gole de cerveja, talvez daqueles mais longos.
Portanto, depois da digestão que só o tempo trás, restam apenas aqueles espinhos nas gavetas, junto daquelas botas que não marcham mais. E seguimos caminhando, cada qual ao seu passo, cada qual ao seu sopro.
todos somos um tanto de África
18 setNada contra a Irlanda, tampouco contra a Guinness. Adoro a cerveja, gostaria de tomar um porre mensal dela. Do mesmo modo (apesar de não conhecer), adoraria passar algumas semanas em Dublim. Gosto demais das bandas irish punk, principalmente Flogging Molly. Acho bacana mesmo, tanto pela ótima sonoridade quanto pelas raízes que estas bandas supostamente reivindicam.
Agora, não consigo admirar em plenitude bandas irish punk brasileiras. Claro, não digo que isto não deve existir, até porque seria incoerência e sou veementemente contra quem queira pautar o punk e as ambições artísticas de quem quer que seja (claro, há limites, mas isto não vem ao caso). Simplesmente não me desce certa sina em ir a “pubs” e captar fotografias forjadas em poses e situações que não se encaixam no modus operandi do punk nacional. Somos o que somos, por que somos, pois somos e sempre seremos. Não há como forjar e há inúmeros empecilhos – questões climáticas, inclusive.
Você até pode tocar algum instrumento celta (por mais que jamais entenderá o significado disto), comprar vasinhos de trevos quatro folhas e rega-los com meia pint de Guinness semanalmente, mas jamais, jamais será e serão tão legais, pesados, poéticos, sinceros e punks como isto:
Por que, depois de uma pedrada destas nos ouvidos, todos aqueles bebês johnson’s cheios de (a)rrebites me parecem mais um príncipe/ex-presidente frustrado por ter um “pé na Senzala”. A não aceitação de sua condição, longe de ser uma simples comodidade, pode ser um primeiro passo para um genocídio cultural. E isto, sim, é inaceitável.
acontece
25 agoCartola conseguia fazer um desolado soar um romântico apaixonado.
E, além disso, com 1 minuto e 40 segundos, fez um punk rock em samba para Ramone algum botar defeito. Imagino, inclusive, esta canção no primeiro álbum dos Ramones (o homônimo), e isto tem explicação: o que é feito com o coração tem linguagem universal. Acontece…

GG Allin & the Kids
22 agoSempre que uma nova banda de “rock” aparece na grande mídia, indo além dos padrões estéticos e comportamentais daquilo que é usualmente considerado como rock (nas suas mais variadas instâncias), há um rebuliço. Na realidade, talvez rebuliço não seja o termo mais correto, mas é evidente que há epsiódios em que elementos simbólicos são distorcidos, usurpados e readequados somente para fins mercadológicos.
Ainda que esta dinâmica ocorra nas duas – ou mais – vias possíveis, é obviamente mais fácil constatar este processo quando se dá à partir de algum elemento criado fundamentalmente para fins de mercado. Os casos são inúmeros. Desde a chamada new wave, que foi tida pelos punks dos anos 1970 como a construção mediática em resposta ao punkrock, é possível perceber este fluxo constante.
No caso específico do Punk, no entanto, a resposta sempre foi incisiva e radicalizada. Se a “massificação” e produção de enlatados do punkrock sinalizava com o esgotamento das possibilidades, logo surgiu o Oi! (ou streetpunk), levando a sonoridade de volta aos guetos de onde partiram. Outra resposta aos enlatados-punk, foi, claro, toda a leva do hardcore britânico (e também o norte-americano /californiano), que, a partir de meados de 1982, tornou o punk ainda mais agressivo, tanto musicalmente, quanto esteticamente e – por que não? – politicamente.
Este processo é mundialmente conhecido e é, certo modo, comum. O punk sempre foi dialético; edificante e niilista ao mesmo tempo, adeptos das teorias do bem-estar social (!) e entusiastas de uma guerra nuclear, ao menos para fins discursivos. Há, no entanto, um exemplo que rompe com isto tudo (o radicalismo do punk), difícil de acreditar somente com relatos orais. Para mostrar o tamanho de perplexidade que tive ao conhecer o dito cujo, vou citar dois eventos distintos.
Cena 1 – Sex Pistols no palco. Sid Vicious recebe uma lata de cerveja na testa, abre um corte e o sangue corre pelo corpo franzino do menino de ouro do punk britânico. O sangue se mistura ao suor e – pronto! – iconizado está o momento.

Cena 2 – Um junkie, com pênis minúsculo, sobe ao palco. Vocifera palavras de baixo calão. E não são palavrões usuais de uma gig punk, mas sim insultos pesados (Kill thy father, Rape thy mother). Não satisfeito, a criatura ainda parte para as vias de fato com alguns fãs. Adiante, começa a se cortar. Obstinadamente, ele passa a defecar no palco e ingerir suas próprias fezes. O seu nome? Jesus.
Por tão “cabulosa” a história, fica difícil de acreditar. Mas, de fato, isto existiu, embora talvez sem tamanha intensidade (ainda que tudo leva a crer que sim). O garoto nascido Jesus Allin, com o tempo se tornou GG Allin, figura lendária da cena punk norte-americana dos anos 1980 e 1990. Participou de várias bandas e tocou em diversos shows que terminavam em porradaria regada à sangue e excremento.
Ainda que os episódios dignos de filme de horror sejam muitas vezes mais marcantes que a própria trajetória artística de GG Allin, é necessário ressaltar que muitos dos sons são clássicos, como pode ser notado logo abaixo.
Ainda assim, é praticamente inevitável dissociar o som das bandas de GG Allin de seus episódios mais assustadores. Só para citar e situar um exemplo, Dee Dee Ramone, o mais punk e junkie dos Ramones (vide a canção 53rd & 3rd), não conseguiu seguir adiante com GG Allin. Sobrou, de fato, para o Jesus em questão, a companhia de um irmão tão “inóspito” quanto ele. O documentário “Hated: GG Allin and the MurderJunkies” aborda justamente a caótica trajetória de GG e a banda na qual tocava seu irmão. Brigas com o público, aparência deplorável causada pelo uso (além do) excessivo de heroína etc.
Seria lugar comum afirmar que GG Allin sempre viveu à margem da própria cena punk norte-americana. Ainda que isto tenha certo sentido, pois seus shows eram raros e curtíssimos, certos momentos mostram que havia, ao menos, um determinado número de admiradores do messias. As cenas abaixo, teoricamente filmadas um dia antes da morte de GG Allin, são para qualquer um fã do filme “Kids” achar que, no caso da película, retratam apenas crianças. Crianças inocentes.
Se foi, de fato, o último dia de vida de GG Allin, difícil determinar. Mas, de qualquer modo, o funeral de Jesus foi também inóspito, aterrorizante, e, para delírio dos sedentos, gravado e disponibilizado no youtube.
do vazio
20 agoA internet é um território líquido. Após cerca de quatro (ou mais) meses sem postar, o blog parece que nunca existiu – as imagens de outros sites vinculadas ao blog não aparecem mais, surgindo então um misto de inexistência e marca de poeira por sobre o espaço vazio.
O vazio é o problema. O não-preenchimento incomoda. Mas, então, como explicar, admitir e compreender que algo insoso, inerte, inodoro, inócuo, efêmero e incipiente ocupava algum espaço? Além disso, como explicar que este espaço não é cativo e, desta forma, sequer pode ser preenchido por outras coisas?
Não sei. Tempos estranhos, estes. Voltar ou não voltar, eis a questão.
Wargames e Wiki Leaks
9 dez
Não acompanho muito a mídia tradicional, não é questão de falta de tempo, mas sim de falta de paciência (há dias em que ligo a Globo News só para ver o Merval Pereira falando, com aquelas gravatas ridículas… é irritante, mas também relaxante). Por isto, não sei como está sendo realizada a cobertura da grande mídia sobre o caso do WikiLeaks, principalmente a questão do CableGate
Acabo conversar com uma amiga equatoriana que me disse que todos os canais de televisão estão tratando isto todo santo dia. Bem, como eu disse, sequer sei se está havendo abordagem da mídia brasileira, mas sei que a Folha/Foda/Falha de São Paulo já disse ter conseguido acesso exclusivo aos telegramas sobre o Brasil. Que beleza, o site está no ar desde 2006, colocando tudo em acesos livre e a dona Falha afirma exclusividade. Mídia caduca…
Enfim, antes que a Folha continue posando de boa-moça e redentora da democracia, convém compartilhar dois links:
1) Wiki Leaks Carta Capital – blog produzido pela Carta Capital e Natalia Viana, do Opera Mundi. Viana é como se fosse a embaixadora (rá!) do Wiki Leaks no Brasil; o blog traz algumas notícias referente ao fenômeno – e este é o termo mais adequado – e também documentos traduzidos
2) Ao vencedor, as batatas – blog anonimamente coordenado, traz também várias notícias sobre o Wiki Leaks e o Cyber-ativismo. Parece que estão precisando de voluntários para tradução de notícias e documentos.
Logo devem – e precisam! – surgir mais links da temática. Navegando por estes dois blogs, é possível perceber a dinâmica da questão, que mostra o quão a internet é anárquica, no bom sentido do termo. Talvez daqui alguns anos, este caso vai se tornar um ponto central sobre a questão do impacto dos meios digitais nas políticas concretas e, em minha humilde opinião, mostra como historiadores têm que estar atentos aos fluxos das comunicações, sobretudo a internet, que já é notada como fonte primária em alguns estudos, porém são raras as pesquisas do tipo no Brasil (Vai ver é questão de tempo, triste espírito colonial…).
A dimensão deste episódio pode ser um marco histórico, massatack em vários sites, sistemas bancários, e agora um garoto de 16 anos de idade é preso na Holanda por auxiliar os ataques aos sites da Amazon, PayPal, Visa, Mastercard, etc. [aqui]
Nos primórdios da internet brasileira, um filme era marcante e motivou muitos jovens a -como nos ensinou Bilu -buscar conhecimento. O filme era “Hackers, Piratas de Computadores” (ou algo assim) e, além da Angelina Jolie, tinha um enredo fraquíssimo, com notebooks de bateria eterna que eram compostos de sistemas operacionais que mais pareciam proteções de tela criadas por hippies com múltiplas overdoses de LSD.
Pois bem, os jovens buscavam o conhecimento, e os hackers mais velhos (na verdade éramos todos lammers , termo que nem deve mais existir) sempre falavam: o filme que nos retrata não é este (Piratas…), mas sim este: Wargames, película lançada em 1983, que traz a história de um jovem que “sem querer” invade o sistema norte-americano de segurança e, no contexto da Guerra Fria, quase causa a Terceira Guerra Mundial.

wargames
A história do garoto preso na Holanda não é a mesma, mas algumas semelhanças são evidentes. Além disto, este montante de informação jogada no ventilador via WikiLeaks, em outros tempos seria o princípio legitimador de um discurso beligerante que, na prática, destruiria boa parcela destes humanos. Nunca é demais ficar esperto….
sorrindo pra quem não vê
7 dezHá alguns anos atrás, li um texto – não tenho a mínima idéia onde, sequer o autor - sobre a constante vigilância com câmeras de segurança.
Muito além do discurso chavão de especialistas em (in)segurança pública e dos zilhões de comparativos entre a sociedade, sociedade do espetáculo, eterna vigilância, vidas vazias, reality show, 1984 e “o” Big Brother, o autor direcionava sua fúria em direção às plaquinhas de “Sorria:(,) Você está sendo filmado”. Não por conta do gerundismo, acho, mas sobretudo pela imposição fascistóide do sorriso, da falsa alegria em estar compartilhando a nossa intimidade, aquela que existe mesmo quando estamos em meio à multidão.
Lembrei-me que, quando esta febre de vigilância chegou à minha vida, eu era ainda criança. Buscava encontrar as câmeras, sorrir tal qual as carinhas mandavam (eu chamava de carinhas, depois viraram smile. Hoje, nada disto, são emoticons). Nunca encontrava as câmeras, talvez por estarem escondidas, mas ainda hoje acho que os gerentes dos estabelecimentos compravam a plaqueta, esperavam economizar em diminuição do índice de assaltos às lojas e – aí sim! – instalar um modernoso sistema de segurança. Quando lí o texto citado, a brincadeira acabou. Agora, estas plaquinhas me irritam.
Lembrei-me de toda esta história ao ver hoje este cartoon/tira/quadrinho (os nomes mudam rapidamente) do Laerte
Está ruim, mas sempre pode piorar. Dias atrás eu vi a versão 2.0 da plaquinha …. agora, com cruéis doses de auto-ajuda.
Neste caso específico, a questão tem evidentes traços de crueldade: além da placa, o fio indica que algo elétrico está rondando o ambiente. Se é uma câmera, não sei, de fato deve ser pouco provável …. mas que é um evidente caso de falta de compaixão, Ah! Isto é!



