Poderíamos ficar aqui discorrendo sobre a grande lista de craques do time. Mas, todos times tem os seus craques, alguns mais especias, outros não. Porém, no coração do torcedor de qualquer equipe sempre reside o craque de seu time, em um pedestal que qualquer gênio do futebol sequer alcançaria.
Acho interessante o Sócrates (escreve na Carta Maior, afinal). Lembro-me do carrinho de Tupãzinho. Passei muitos momentos de raiva vendo aquele M. Carioca fazendo gols em Veloso. Raiva, admito, não somente pela partida, mas um pouco pelo caráter daquele, que não me parece o mais louvável do mundo.
O que ocorre, no entanto, é que o Corinthians é definitivamente grande. E assim é por conta de sua história, de sua formação, da ligação sempre existente com as classes populares, com a ralé. Não à toa, a democracia futebolística alí “reinou”. Os primórdios de sua existência bem mostram – e a historiografia atesta – as barreiras que lhe foram impostas.
O time dos ‘pretos’, junto com os time dos ‘italianinhos’. É nisto, justamente, que reside a grandeza do Corinthians. Ele é o óleo da água palestrina, e vice-versa. Há o enxofre, sempre houve e, infelizmente, afro-italianos salvaram o enxofre da diluição da história, por meio de malditas barricas.
O ódio, deixo para aqueles que menosprezo. Não posso odiar quem eu reconheço. Rival sim, inimigo jamais. A história deles não permite isto, eles mesmos não merecem, assim como não merecem a libertadores – e nisto cabe a falta de competência deles e a enorme alviverde.
Feliz 100 anos, Corinthians. Mais sorte nos próximos 100, vocês vão precisar.
Ouvi hoje uma canção que me fez ir atrás de outras. Eu explico.
“Bella Ciao” é uma canção antifascista, entoada pelos militantes anarquistas e comunistas que lutavam contra as tropas nazi-fascistas. Este termo -nazi-fascista, nazifascista – pode não ser muito apropriado em determinadas conjunturas, pois acaba confundindo dois movimentos políticos que tem determinadas particularidades. Mas creio não ser o caso, pois era justamente o cerne da batalha e, consequentemente, da canção. Do mesmo modo, colocar comunistas e anarquistas numa mesma categoria não é, de maneira alguma, descabida. Neste caso.
Eis:
Una mattina mi son svegliato,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
Una mattina mi son svegliato,
e ho trovato l’invasor.
morto per la libertà!»
Mi diranno «Che bel fior!»
E le genti che passeranno,
O partigiano, portami via,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
O partigiano, portami via,
ché mi sento di morir.
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!…
E se io muoio da partigiano,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
E se io muoio da partigiano,
tu mi devi seppellir.
«È questo il fiore del partigiano»,
E seppellire lassù in montagna,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
E seppellire lassù in montagna,
sotto l’ombra di un bel fior.
E le genti che passeranno,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
Esta canção, após determinado tempo, passou a ser reproduzida por variados grupos Partisans, em diversas nações. Os partisans eram agrupamentos sem muita organização, do ponto de vista militar, que eram formados para conter e minar a ameaça de invasão nazista, na maior parte dos casos. Houve casos de Partisans com integrantes judeus.
É interessante notar que a canção continua sendo um hino antifascista, e é cantada atualmente, inclusive em estádio de futebol. Porquê? Simples, embora triste. Há inúmeros grupos racistas, xenófobos e neonazistas em atividade na europa atualmente, e muito deles contam com o apoio de algumas “torcidas organizadas” locais, que lá tem o nome “Ultra” (que, na verdade, não se resume apenas ao termo diferente, mas sim uma prática de torcer diferente do que estamos acostumados a ver no caso das organizadas brasileiras).
Casos de racismo no futebol têm sido frequente, o que levam algumas entidades proporem boicotes e campanha de esclarecimento sobre o assunto. Não sei até onde o “esclarecimento” é válido nestes casos, tendo em vista que dificilmente alguém da mentalidade de extrema-direita muda sua postura e seus preconceitos. Isto vale também para outros posicionamentos políticos, obviamente. Penso que a questão está mais no campo (sem trocadilhos) jurídico.
Na Itália, a presença de torcidas que seguem uma postura neonazista são várias, e talvez o caso mais emblemático seja da IRRIDUCIBILI (Lazio), que contam inclusive com o apoio de Paolo Di Canio, que era jogador da Lazio e fascista assumido, além de integrante desta torcida. Di Canio possui tatuagens em homenagem ao Duce, inclusive (“Dux”).
(Alguma dúvida disto? – foto da BBC/UK)
Porém, não é apenas de fachos com cara de malvado e músicas racistas que vive o futebol italiano e as claques da velha bota. Um caso de claro postura antifascista advem da torcida da Livorno.
Vejam a música que a torcida está cantando:
A Livorno, inclusive, tem um caso parecido, mas antagônico, ao de Di Canio. Cristiano Lucarelli é conhecido não apenas pelo bom futebol, mas por ser um militante comunista. Ao comemorar seus gols, frequentemente faz saudação típica
O número 99 não é por acaso. É o ano da fundaçao das Brigadas Autônomas Livornesas, ultra da qual Lucarelli é um dos fundadores. Atualmente, ele joga no Parma.
Voltando às canções antifascistas, há diversas outras do tipo:
Canto dei malfattori
Inno della rivolta
Há ainda casos de bandas de punkrock que gravaram algumas destas canções:
Inno individualista – versão da banda Youngang, banda Punk/Oi! anarquista de Torino
Há ainda La hoguera de la Revolución, que é uma canção criada durante a Guerra Civil Espanhola. Há uma versão da banda punkrock “espanhola” SinDios:
Há ainda uma versão de uma banda tupiniquim, que eu gosto bastante: Juventude Maldita (“Para às barricadas”, no youtube).
Outra canção anarquista bastante conhecida é La internacional anarquista, surgida também durante a Guerra Civil Espanhola:
“Arriba los pobres del mundo!
¡En pie los esclavos sin pan!
Alcémonos todos, que llega
La Revolución Social…”
é de arrepiar.
O hino da Internacional Comunista é bastante conhecido, o Pc do B vez ou outra apresenta a canção em seus programas na TV. Talvez seja só isto que sobrou de comunismo nas propostas e práticas do partido…
A banda Punk/Oi! Garotos Podres (embora eles prefirem o “rótulo” Rock de Subúrbio, talvez pra não criar tanta confusão, algo que sempre acompanhou a trajetória da banda) tem uma versão deste hino comunista:
Muitas pessoas acham que o Garotos Podres é uma banda anarquista. Engano. Apesar de músicas como “Anarkia Oi!”, e outras com teor próximos ao anarquismo, eles defendem um ideal esquerdista mais condizentes ao comunismo. O Mao, vocalista da banda, é filiado ao PT (participante das alas mais esquerdistas do partido), além de ser historiador (publicou ano passado, salvo engano, um livro sobre a Revolução Cubana, fruto da tese de doutorado defendida na Universidade de São Paulo).
(É bom ver que a USP não está restrita à práticas pós-modernistas na historiografia. Um alívio)
Além de Mao, outro integrante dos Garotos Podres é militante do PT (não sei se é o Sukata ou o Mauro), inclusive foi candidato à vereador pelo partido governista nas eleições passadas, candidato na cidade de São Bernardo (ou alguma outra do ABC, não tenho certeza).
Para quem tiver oportuinidade e curiosidade, visitem o link, página do site Direitos Humanos na Internet, que reúne uma série de canções e hinos, muitas das quais revolucionárias.
Trago de bônus uma versão de Bella Ciao feita por um torcedor palestrino:
Até mais, boa semana aos (não)leitores ! :)
Di Canio possui tatuagens em homenagem ao Duce, inclusive (“Dux”).
Mais alguns episódios envolvendo a torcida do Grêmio – em especial a uma porção pertencente a Geral – e o racismo.Foram divulgados dois vídeos recentemente, um defendendo a inexistência do racismo na torcida, outro defendendo a existência de tal.
Achei ambos com discurso mto fraco.
No video ‘anti-racista’, aparece uma garota se referindo aos negros de uma maneira muito tosca: “Fiquei numa sala com eles e nada aconteceu” (basicamente isto o que ela diz). Sem comentários. Demonstra amadorismo, não conseguiram fundar um discurso sólido … com este tipo de entrevista, nunca conseguirão provar a inexistência de racismo na torcida – ou melhor, na parte de alguns membros (é esta a existência que acredito, num primeiro momento – nem minar as críticas.
O vídeo que denuncia o racismo é também desconexo.
Usa dum esquema de repetição de frases que mostra claramente que quem construiu o vídeo é possivelmente torcedor de algum rival gremista. Além disto, por mais que exista uma relação entre imitarem sons de macacos ao jogador do Cruzeiro (atitude repugnante, nojenta e que precisa ser esclarecida), os cânticos com a palavra “Macaco” se referem ao Internacional e a raiz histórica é bem mais antiga, obviamente … soa um pouco anacrônico.
Mas, de qq maneira, é, no mínimo, um ranço racista. Dá pra se trabalhar pra acabar com isto, mas tem que partir da própria torcida. E não ficar apenas com vídeos no Youtube tentando levar o debate a outro nível.
Ps: Deixar bem claro que acho a Geral a melhor torcida do Brasil, em termos de espetáculo e postura de apoio incondicional ao time. Mas isto não quer dizer que existam estes problemas – perigososíssimos, aliás.