Lembro-me sempre desta ocasião, há uns quatro ou cinco anos atrás. Fazíamos faculdade de história, estávamos em uma aula de Teoria da História (o nome não era bem este, mas a finalidade sim), ministrada por um professor muito bom e, apesar de não concordar com suas “convicções históriográficas” (um anarquista pós-modernista, por assim dizer), via nele algumas indagações e questões sobre o caráter social e acadêmico da historiografia bastante interessante. Era, no entanto, muita técnica. O que, na disciplina em questão, é plenamente aceitável.
Eis que um colega passa a indagá-lo sobre quais seriam as finalidades de tantas correntes historiográficas; no que uma disputa de conceitos e termos – que às vezes chegam a ser ridículos – iria fazer-nos profissionais capacitados e não apenas meros repetidores de citações com um número limitado de idéias e abordagens originais. O colega, no momento, chegou a postular a necessidade de um anarquismo epistemológico, o que à princípio pareceu extremamente agradável.
Mas aí, há o mea culpa: nunca fui um aluno brilhante, creio que nunca terei a oportunidade de ser um. Simplesmente não me agrada muito a dinâmica de aluno-professor, pois por mais que o mestre te dê liberdade, vejo nesta relação uma dialética um pouco nefasta. Claro, isto pode ser também o fruto de um medo causado pela ignorância, lidar com alguém que sempre saberá mais do que você (ou ao menos consegue simular perfeitamente isto), seja na prática didática, seja nas questões filosóficas e teóricas das humanidades. Por isto, talvez, o tal anarquismo (que no caso estava mais próximo de um niilismo) epistemológico me agradou bastante.
O professor certamente respondeu ao aluno. No entanto, esta questão ficou na em minha cabeça desde aquele exato momento, não sei se ouví a resposta, mas simplesmente não me recordo. A questão dos usos políticos da história e o papel social desempenhado pelos historiadores e outras categorias das ciências humanas é uma constante em meus pensamentos, tenho um certo horror ao ver as pessoas entregues à dinâmica da “ditadura lattes” ou, como bem observa um amigo, ao estágio final de nossa evolução: o homo lattes. Produzir bastante, OK, isto é uma exigência de mercado e estamos abaixo de qualquer mudança significativa nesta lógica. Mas o que busco sempre é tentar encontrar – ou forjar – uma utilidade significante para minha atuação.
O colega da questão se formou. Já bastante desiludido e cansado, era ao menos o que eu notava. Houve uma reviravolta em sua vida, passou a trabalhar na área jornalística, dos editoriais de moda, exercendo também atividade de fotógrafo e residindo num país platino. Vejo que está muito feliz, e isto também muito me agrada.
Eu, assim como outros colegas, ainda estamos inseridos nos círculos acadêmicos. Talvez por conta deste episódio, passei sempre a trabalhar com uma análise voltada aos aspectos políticos da história, sobretudo dos tempos mais recentes, a chamada história do tempo presente (ou história imediata, como afirmam alguns críticos). Busco sempre, desta maneira, inserir meu estudo em uma compreensão do passado voltada os olhos ao presente. Clichê, sem dúvida, mas ao menos é uma tentativa.
Os anos se passam, e a já citada lógica produtivista começa a exercer pressão sobre nossas atividades. Em determinado momento, redigi um artigo para uma revista científica sobre um fenômeno típico da extrema-direita (a nível internacional), ocorrido a partir dos anos 1980 no Brasil. Não convém divagar sobre a temática, mas uma passagem foi discutida: ao afirmar sobre questões de censura e cerceamento de liberdades editoriais (mesmo para o caso de libelos à droite), afirmei que esta questão é extremamente delicada, ainda mais se tratando de um país com pouca tradição democrática, e feridas ainda abertas referentes ao período da ditadura civil-militar brasileira.
Um dos arguidores afirmou que esta era uma questão que eu dava muito valor, pois a sociedade não apresentava tantas “feridas” em relação ao tema. Claro, os diretamente envolvidos nunca se esquecerão disto (assim espero), mas dizia o arguidor que não havia tamanha dimensão neste quesito. Algo que me deixou intrigado foi o fato do professor ser argentino o que, longe de cair num lugar comum desta rixa boba entre argentinos e brasileiros, me fez pensar a dimensão da ditadura militar argentina que foi, sem dúvidas, muito mais sanguinária e carniceira (acho que os termos são exatamente estes!).
Pois bem, a indicação crítica não foi aceita, eu não quis retirá-la e tampouco argumentei a questão (até pq não era o espaço apropriado). O artigo foi aceito e está “rodando” por aí. É o meu preferido, diga-se de passagem. Mas, voltando ao quesito do papel político e social dos profissionais da área, vejo nesta manhã de domingo um artigo no site do Luís Nassif, intitulado “Como será a bala de prata na campanha” (leiam, é interessante), sobre uma questão que já tratei rapidamente – e superficialmente – no blog: o passado de Dilma Roussef.

para não esquecer
Aliás, o passado de Dilma não. A construção de uma memória sobre a candidata do Partido dos Trabalhadores. Como trabalho com o aspecto político da coisa (digo, a historiografia), sempre estive em contato com a questão da construção (seja objetiva ou subjetiva) de uma identidade social com relações diretas ao passado, assim como o uso político deste processo. No caso da eleições presidenciais, onde tudo é extremamente superlativizado, as dimensões desta prática alcançam terrenos que ultrapassam os limites morais, impostos pela sociedade e/ou mesmo pela própria história.
Há, portanto, um aspecto claro da questão social da prática historiográfica, e há também mais um quesito: as feridas existentes da ditadura militar ainda não estão “cicatrizadas”, e não apenas pela questão da justiça relacionada à memória, mas também pelo uso político-partidário que tal questão exerce na mentalidade das pessoas: seja pela pecha de “libertário” que um candidato se auto proclama, por ter lutado contra a ditadura (e sabemos que lutar contra a ditadura não implica automaticamente num posicionamento justo em relação às questões urgentes para a sociedade atual, como alguns candidatos ousam afirmar); ou mesmo pela imagem construída sobre a luta da esquerda revolucionária, fenômeno situado em um processo que foge à lógica de compreensão democrática (afinal de contas, as possibilidades de atuações por meios legais eram nulas).
Estas questões, portanto, ao mesmo tempo tão íntimas e universais, sofrem um processo de deformação para um uso político, tanto por meio de partidos, quanto por alguns veículos de imprensa comprometidos com intereses de classes restritas. E, embora seja revoltante e angustitante notar esta prática em pleno processo eleitoral, algo que pode determinar o encaminhamento de um povo por quatro ou mais anos, ela ao menos serve para jogar em minha cara o papel fundamental que as ciências humanas exercem na sociedade, não somente sobre fatos recentes da história, mas sobretudo acerca da capacidade argumentativa e de compreensão do mundo que nos cerca.

Há a memória, há o esquecimento, há o silenciamento. Mas, neste caso específico, há sobretudo um uso imoral da história e uma construção latente para reivindicações de certa elite que, “ironicamente”, foi a que mais lucrou com a ditadura civil-militar brasileira.
[PS: uma dica de texto, bastante agradável e de imenso valor - POLLAK, Michael. "Memória, Esquecimento, Silêncio"]