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Juventude, Punk, Whisky ‘n’ Samba

21 out

Vez ou outra, o Punk Rock é descrito como um estilo de música surgido na segunda metade da década de 1970, com características marcantes: velocidade rápida e poucos acordes – ou seja, nenhum virtuosismo musical.

Isto, obviamente, tem certa razão e lógica. O punkrock é, via de regra,  algo extremamente simples, do ponto de vista da robustez musical, e do fácil acesso, ou seja:  não é difícil você conseguir tocar os sons de suas bandas prediletas, tampouco montar uma banda.

Por estes e outros motivos diversos, o punkrock e a contracultura punk, nas suas mais diversas expressões é um fenômeno revolucionário (não do ponto de visto programático), tanto na indústria cultural, quanto nos movimentos juvenis. O punk não apenas deu ânimo à inúmeras novas bandas, resgatando o rock’n'roll nas suas origens mais simples – e sinceras – possíveis, como também coaptou, compreendeu e impulsionou  a desilusão e rebeldia de diversas gerações de jovens sem perspectiva de futuro e estabilidade.

Algumas pessoas podem vir a dizer: “Ah, mas era uma rebeldia despropositada, sem grande ambições sócio-políticas“. Em parte isto está correto. A cultura punk nunca foi algo plenamente organizado e com um fim e meios específicos. Penso que não haveria de ser diferente disto, pois é justamente este caráter que alguns podem descrever como “mambembe” que foi um dos motivos para que o Punk seja algo tão vasto e passível de várias compreensões ou mesmo classificações e, consequentemente, ramificações.

Deste modo, evito usar o termo “movimento” para o Punk/Punkrock, justamente por enxergar neste termo (ou seria um conceito?) uma certa padronização e concepção única sobre determinada conjuntura (no caso, o Punk). Prefiro pensar e acreditar que esta cultura seja algo em constante construção e desconstrução.

Esta pode ser uma posição extremamente apaixonada, e de fato é. Vivi intensamente grande parte da minha adolescência entre rodas de pogo, conversas em bares, leitura de zines e ameaças de brigas, algo que, felizmente, raramente ocorria. E, durante todo este caminho, a minha visão sobre o que o Punk significava mudou constantemente. Creio, inclusive, que cheguei num ponto no qual afirmo que é praticamente impossível a definição concreta do que seria esta contracultura.

Há bandas punks em todo o mundo, e por mais que muitas delas busquem o “espírito” de 1977 (ano emblemático do que seria a “fundação” do Punk), ou então uma cópia de bandas legendárias, algo que geraria uma determinada padronização tanto musical, quanto estética, é óbvio que uma banda proveniente do leste europeu tem diferenças em relação a uma formada no triângulo mineiro, por contas das bagagens culturais, entre outros motivos.

Claro, às vezes isto não é o bastante para que duas bandas de localidades distintas sejam extremamente parecidas, mas creio que, com o tempo, as cópias-das-cópias acabam, simplesmente por que a originalidade é um dos motores na cena roqueira, e isto inclui as bandas de punkrock.

Buscando a originalidade, diversas bandas deste cenário herdam influências em culturas tradicionais de seus países, ou mesmo de outros Estados. Se eu fosse usar um linguajar técnico de um articulista econômico, poderia falar que isto é reflexo de uma saturação do mercado de bandas punks na busca por uma consolidação de determinado produto num mercado competitivo. Bullshit! A lógica do mercado não se aplica ao underground, porque acredito que a boa música punk é aquela feita com alma, com sentimento (de preferência sem choros, por favor).

A conjunção de elementos do punkrock com influências trazidas de outras músicas e culturas é sempre uma boa pedida e um prato cheio para conversas que podem ir tanto do viés antropológico quanto ao delicioso patamar alcoólico.

No caso do patamar alcoólico, quando pensamos em punkrock + cultura folk de determinada região + alcoól, é difícil não pensar numa banda que eu escuto constantemente: The Pogues

Banda irlandesa que unia sonoridades e instrumentos de música celta, com uma certa rapidez nas músicas e uma postura de palco bastante punk, além de contar com um vocalista que, além de ter tocado anteriormente em uma banda punk (não me lembro o nome agora), vivia de maneira destrutiva tal qual muitos punks e/ou drunk boys na época: Shane Macgowan e seus indefectíves poucos dentes.

O resultado disto tudo? Uma ÓTIMA banda, com uma trajetória extremamente conturbada (a história e as fofocas você pode encontrar em diversos sites, não gosto mto de falar disto) e músicas LINDAS, tal qual:

The Pogues – “Dirty Old Town

The Pogues é considerada a primeira, se não me engano, das bandas do que é chamado como Irish Punk (ou mesmo Celtic Punk). Atualmente, há diversas destas em atividade. As mais conhecidas: Dropkick Murphys, Real Mckenzies, Flogging Molly (estupenda), Blood or Whiskey, entre outras.

Flogging Molly – “Drunken Lullabies”

Grande parte destas  bandas são formadas por filhos de imigrantes irlandeses (a tal da bagagem cultural), ou simplesmente por amantes desta música. Procurando, qualquer internauta atento pode facilmente achar bandas Irish Punk na Itália, Japão ou Israel (infelizmente, não vou lembrar o nome desta banda, que inclusive canta em iídiche).

Claro, claro .. a música irlandesa é realmente mto bonita e parece ser um casamento perfeito com o punkrock. Mas… e o Samba?

O meu conhecimento sobre bandas que buscam aliar a sonoridade do Samba com a música e atitude punk é pífio. Sei que, recentemente, alguns integrantes da velha-guarda punk paulistana, tal qual o Clemente (vocalista dos Inocentes, banda em atividade até hoje) fizeram um show – ou seria um projeto? -  que tocava músicas punks com conjuntos de samba. Infelizmente, não sei muito além disto.

Porém, me lembro perfeitamente de uma banda que faz este casamento, entre Samba e Punk. Além disto, tem uma característa um tanto quanto peculiar: são escoceses, que participavam de uma “escola” de samba naquelas terras e decidiram montar uma banda punk pra tocar clássicos do punk rock… vestidos de mulher, ou melhor, de vestidos!

Surreal, não? Nem tanto.. a parada é interessante: Bloco Vomit


A banda tem 3 CDS lançados, dois eu tenho aqui na minha singela coleção. O site oficial é www.blocovomit.com e o primeiro cd parece estar disponível pra download neste link.

Infelizmente, não achei nenhum vídeo no youtube… mas, garimpando, creio ser possível achar a participação deles no programa Musikaos, que era apresentado pelo Gastão (ex-VJ da MTV, que foi um dos responsáveis pelo documentários Botinada!, sobre o punk brasileiro), na Tv Cultura.

Outra banda que mistura elementos de diversas localidades com o punk é uma bastante conhecida: Gogol Bordello

Não vou me arriscar a falar muito deles, pois pouco conheço sobre a trajetória e formação desta. Sei que tem integrantes de diversos países do globo, um dos motivos para um som tão bom.

Mas algo posso afirmar com uma certa dose de convicção: cada vez mais vejo o Punk como algo múltiplo, seja nas sonoridades, convicções políticas e (a)partidárias e o caráter atual e jovem, dos 15 aos 95 anos de idade.

Stay Punk!

Abs :)

ps: Possíveis erros de Português são fruto de uma imensa preguiça em reler o texto atentamente.

Rebeldes y Revolucionários

19 out

Ouvi hoje uma canção que me fez ir atrás de outras. Eu explico.

“Bella Ciao” é uma canção antifascista, entoada pelos militantes anarquistas e comunistas que lutavam contra as tropas nazi-fascistas. Este termo -nazi-fascista, nazifascista – pode não ser muito apropriado em determinadas conjunturas, pois acaba confundindo dois movimentos políticos que tem determinadas particularidades. Mas creio não ser o caso, pois era justamente o cerne da batalha e, consequentemente, da canção. Do mesmo modo, colocar comunistas e anarquistas numa mesma categoria não é, de maneira alguma, descabida. Neste caso.

Eis:

 

Una mattina mi son svegliato,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
Una mattina mi son svegliato,
e ho trovato l’invasor.
morto per la libertà!»
Mi diranno «Che bel fior!»
E le genti che passeranno,

O partigiano, portami via,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
O partigiano, portami via,
ché mi sento di morir.
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!…

E se io muoio da partigiano,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
E se io muoio da partigiano,
tu mi devi seppellir.
«È questo il fiore del partigiano»,

E seppellire lassù in montagna,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
E seppellire lassù in montagna,
sotto l’ombra di un bel fior.

E le genti che passeranno,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!

Esta canção, após determinado tempo, passou a ser reproduzida por variados grupos Partisans, em diversas nações. Os partisans eram agrupamentos  sem muita organização, do ponto de vista militar,  que eram formados para conter e minar a ameaça de invasão nazista, na maior parte dos casos. Houve casos de Partisans com integrantes judeus.

É interessante notar que a canção continua sendo um hino antifascista, e é cantada atualmente, inclusive em estádio de futebol. Porquê? Simples, embora triste. Há inúmeros grupos racistas, xenófobos e neonazistas em atividade na europa atualmente, e muito deles contam com o apoio de algumas “torcidas organizadas” locais, que lá tem o nome “Ultra” (que, na verdade, não se resume apenas ao termo diferente, mas sim uma prática de torcer diferente do que estamos acostumados a ver no caso das organizadas brasileiras).

Casos de racismo no futebol têm sido frequente, o que levam algumas entidades proporem boicotes e campanha de esclarecimento sobre o assunto. Não sei até onde o “esclarecimento” é válido nestes casos, tendo em vista que dificilmente alguém da mentalidade de extrema-direita muda sua postura e seus preconceitos. Isto vale também para outros posicionamentos políticos, obviamente. Penso que a questão está mais no campo (sem trocadilhos) jurídico.

Na Itália, a presença de torcidas que seguem uma postura neonazista são várias, e talvez o caso mais emblemático seja da IRRIDUCIBILI (Lazio), que contam inclusive com o apoio de Paolo Di Canio, que era jogador da Lazio e fascista assumido, além de integrante desta torcida. Di Canio possui tatuagens em homenagem ao Duce, inclusive (“Dux”).

(Alguma dúvida disto? – foto da BBC/UK)

Porém, não é apenas de fachos com cara de malvado e músicas racistas que vive o futebol italiano e as claques da velha bota. Um caso de claro postura antifascista advem da torcida da Livorno.

Vejam a música que a torcida está cantando:

A Livorno, inclusive, tem um caso parecido, mas antagônico, ao de Di Canio. Cristiano Lucarelli é conhecido não apenas pelo bom futebol, mas por ser um militante comunista. Ao comemorar seus gols, frequentemente faz saudação típica

O número 99 não é por acaso. É o ano da fundaçao das Brigadas Autônomas Livornesas, ultra da qual Lucarelli é um dos fundadores. Atualmente, ele joga no Parma.

Voltando às canções antifascistas, há diversas outras do tipo:

Canto dei malfattori

Inno della rivolta

Há ainda casos de bandas de punkrock que gravaram algumas destas canções:

Inno individualista – versão da banda Youngang, banda Punk/Oi! anarquista de Torino

Há ainda La hoguera de la Revolución, que é uma canção criada durante a Guerra Civil Espanhola. Há uma versão da banda punkrock “espanhola” SinDios:

Há ainda uma versão de uma banda tupiniquim, que eu gosto bastante: Juventude Maldita (“Para às barricadas”, no youtube).

Outra canção anarquista bastante conhecida é La internacional anarquista, surgida também durante a Guerra Civil Espanhola:

“Arriba los pobres del mundo!
¡En pie los esclavos sin pan!
Alcémonos todos, que llega
La Revolución Social…”

é de arrepiar.

O hino da Internacional Comunista é bastante conhecido, o Pc do B vez ou outra apresenta a canção em seus programas na TV. Talvez seja só isto que sobrou de comunismo nas propostas e práticas do partido…

A banda Punk/Oi! Garotos Podres (embora eles prefirem o “rótulo” Rock de Subúrbio, talvez pra não criar tanta confusão, algo que sempre acompanhou a trajetória da banda) tem uma versão deste hino comunista:

Muitas pessoas acham que o Garotos Podres é uma banda anarquista. Engano.  Apesar de músicas como “Anarkia Oi!”, e outras com teor próximos ao anarquismo, eles defendem um ideal esquerdista mais condizentes ao comunismo. O Mao, vocalista da banda, é filiado ao PT (participante das alas mais esquerdistas do partido), além de ser historiador (publicou ano passado, salvo engano, um livro sobre a Revolução Cubana, fruto da tese de doutorado defendida na Universidade de São Paulo).

(É bom ver que a USP não está restrita à práticas pós-modernistas na historiografia. Um alívio)

Além de Mao, outro integrante dos Garotos Podres é militante do PT (não sei se é o Sukata ou o Mauro), inclusive foi candidato à vereador pelo partido governista nas eleições passadas, candidato na cidade de São Bernardo (ou alguma outra do ABC, não tenho certeza).

Para quem tiver oportuinidade e curiosidade, visitem o link, página do site Direitos Humanos na Internet, que reúne uma série de canções e hinos, muitas das quais revolucionárias.

Trago de bônus uma versão de Bella Ciao feita por um torcedor palestrino:

Até mais, boa semana aos (não)leitores ! :)

Di Canio possui tatuagens em homenagem ao Duce, inclusive (“Dux”).
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